O Regresso
Brutal e poético
Inspirado nos acontecimentos reais da vida de Hugh Glass (1783-1833) – explorador, caçador e comerciante de peles – que depois de ter sido atacado por um urso e, por óbvio, estar bastante ferido, é deixado para trás por integrantes do grupo expedicionário do General Ashley (aqui Andrew Henry) – principalmente por parte de John Fitzgerald (Tom Hardy) –, sem suprimentos ou armas.
A trama é facilmente dividida em quatro atos: o abandono; a luta pela sobrevivência; a recuperação; e a esperada (e brutal) vingança de Glass, interpretado por Leonardo DiCaprio.
– Só isso? Você deve estar se perguntando. E eu te respondo: – Não. Nada é tão simples quanto aparenta ser.
Alejandro González Iñárritu dirigi este western-épico de uma maneira tão especial que fica difícil comparar esse filme com outros de temática idêntica: a voracidade – que vai desde a respiração que embaça a lente, ou mesmo quando DiCaprio se arrasta pelo chão, totalmente destroçado, e a câmera acompanha seu trajeto quase que se arrastando também, mostrando toda a dificuldade e sofrimento do protagonista, tudo isso em plano detalhe e primeiríssimo plano, respectivamente; e argúcia – inúmeras vezes o diretor quebra o ritmo da trama centrando a câmera na copa das árvores em contra-plongée onde, gera um efeito interessante, mas subjetivo a quem o assiste –, com que ele filma, mostra, realmente, que é um diretor diferenciado.
A trilha sonora lembra bastante a de Birdman - uma espécie de som de batuque, mas bem primitivo, assim como há alguns plano-sequências bem difíceis de serem executados, tal como a do início (que o filme nos diz "a que veio") ou aquela em que Glass é perseguido por índios e salta de um penhasco.
The Revenant é um espetáculo, tecnicamente falando, beira a perfeição; e isso se deve muito ao EXCELENTE trabalho executado pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, responsável, também, pela fotografia dos premiados Birdman e Gravidade. Falando um pouco mais sobre o maior destaque entre vários percebidos no filme, a fotografia soa como algo poético e assustador ao mesmo tempo: Iñárritu e Lubezki querem que o público apreciem aquela beleza gelada, os rios, a geografia do lugar como um todo e, também, querem demonstrar o quanto somos pequenos e insignificantes perante a amplidão da natureza. É uma obra com imagens poderosas. É obra magistral não só nesse sentido, pois não há tantos diálogos em O Regresso, é um caso raro onde, o silêncio, e a contemplação de uma linguagem visual que, por si só, prospecta o cidadão a refletir e pensar, nunca foi tão bem utilizado, e é uma interessante válvula de escape diante tanta pirotecnia vista nos filmes atuais.
Sobre as atuações: DiCaprio tem uma atuação MUITO BOA. Realmente ele encarna o personagem de maneira peculiar, é algo bem diferente do que estamos acostumados a ver se tratando dele, daí a estatueta. Por seu turno, Tom Hardy sempre é muito bom em tudo que faz; Domhnall Gleeson está em constante evolução, assim como o interessante Will Poulter (ambos têm seus personagens bem resolvidos dentro da trama).
Enfim, sem dúvidas, The Revenant é um grande filme. O único problema, talvez, reside em sua duração, mas isso varia de pessoa para pessoa, porquanto é um sacrifício do roteiro para demonstrar que o tempo passou, daí a divisão de atos a que me referi. No entanto, o filme se arrasta no "quarto ato" (vingança), é onde a experiência vai ficando cansativa. Em contrapartida, quando chega esse momento... Ahhh! Tarantino deve estar sorrindo, aplaudindo: sangue na neve, membros decepados... Enfim, é um prato cheio pra quem esperou 156 minutos por esse momento. Entretanto, ao fim, não é a ação e tensão proporcionadas que se sobressaem, mas sim a contemplação de uma linguagem visual única que contrapõe a história simples do filme, onde, muitas vezes, remete que erramos sim, em alguns momentos, com nós mesmos, com outras pessoas ou com a própria natureza. Afinal, foi assim que a natureza compôs as suas espécies. Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir.
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Por Lautner Angelov
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Por Lautner Angelov

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